A eleição de 2018 foi muito diferente de todas as outras eleições. Elegeu-se presidente da república o candidato de um partido pequeno, sem estrutura, sem dinheiro, e sem tempo de televisão.
Em muitos estados, alguns candidatos nos quais quase ninguém apostava, também de partidos pequenos, sem recursos nem estrutura, elegeram-se governadores. Muitos deles, saindo das ultimas colocações nas pesquisas, para vencer a eleição.
Da mesma forma, um grande numero de candidatos novatos conseguiu se eleger a cargos proporcionais. A maior parte deles, com pouca estrutura e quase sem recursos.
As casas legislativas e o Congresso tiveram então, uma grande renovação.
Foi uma eleição "sui generis" e esta experiencia merece por isso mesmo ser estudada para se entender o que realmente aconteceu.
Acho que a eleição de 2018, foi marcada por três elementos principais:
1 - A Lava-Jato. 2 - O ante-petismo. 3 - A comunicação pelas redes sociais.
A Operação Lava-Jato foi um marco nesta campanha. Poucos os políticos processados ou atingidos por ela conseguiram se reeleger. E aqueles que, mesmo atingidos por ela, conseguiram um outro mandato, o fizeram com extrema dificuldade e com campanhas muito dispendiosas.
Da mesma forma o ante-petismo. A ligação PT-corrupção permeou o processo eleitoral e os políticos petistas ou ligados ao PT, pagaram a conta.
Na realidade, todos aqueles ligados ou considerados representantes da "velha politica", filiados principalmente ao PT, ao MDB ou ao PSDB, receberam o castigo de uma eleição que não perdoou a corrupção e cobrou eleitoralmente e com juros o que eles estavam devendo.
Os efeitos da Lava-Jato e do ante-petismo determinaram à sua maneira o desenvolvimento e o desfecho desse processo eleitoral.
Se o quadro politico não mudar, Lava-jato e ante-petismo ainda vão influenciar a próxima eleição. Só não sabemos com que peso e capacidade de influencia o farão.
A Lava-jato acaba de receber um golpe do STF com a decisão por 6X5 de enviar para a Justiça Eleitoral os processos que envolvam caixa dois. E agora mesmo, enquanto escrevo esse texto, a Segunda Turma do STF acaba de enviar para a Justiça Eleitoral o processo em que o ex-Senador Lindenberg é acusado de Caixa-2, mostrando que muitos processos podem ser revistos e até anulados.
É preciso ver então que consequências terá essa decisão do Plenário do STF e qual a força da Lava-Jato depois dela. Sua influencia na próxima eleição vai depender do desenvolvimento desse quadro.
Da mesma forma, o ante-petismo vai depender muito do êxito maior ou menor do governo Bolsonaro. Se Bolsonaro até o inicio do processo eleitoral de 2020, conseguir mostrar um bom governo, melhorando o emprego, a segurança e conseguindo a reforma da Previdência, sua capacidade de influencia na eleição vindoura será muito grande e o sentimento ante-petista vai se fazer presente novamente.
Se, ao contrário, Bolsonaro tropeçar no caminho, perder o rumo e não conseguir minimamente cumprir suas promessas eleitorais, o ante-petismo vai diminuir, a esquerda pode voltar com força e soprar um vento a seu favor nas próximas eleições municipais.
Independente destes dois elementos, a Lava-jato e o ante-petismo, acredito que o grande diferencial nesta eleição passada foi a comunicação com o eleitor através das redes sociais.
Este não é um fenômeno novo. Barack Obama se elegeu priorizando as redes sociais em sua campanha.
Donald Trump foi pelo mesmo caminho. Poucos esperavam que ele passasse das prévias. Centralizou sua campanha nas redes sociais e saiu das últimas colocações para ganhar a presidência dos Estados Unidos.
No Brasil, contra todas as expectativas, Bolsonaro consolidou sua candidatura
nas redes sociais. Virou um fenômeno eleitoral e se elegeu presidente.
Como consequência destas experiencias, na próxima eleição de 2020 e nas posteriores, as redes sociais e os seus instrumentos, Facebook ou Instagran, como forma de comunicação eleitoral com a população, vão ganhar muito mais espaço. E isto não se aplica somente aos majoritários. Aos proporcionais também.
Os candidatos que fizeram campanha da forma tradicional, centralizando no contato direto com o eleitor, com eventos, reuniões, corpo-a-corpo, mesmo gastando muito mais recursos e fazendo uma campanha muito mais desgastante, tiveram menos votos do que esperavam e muito mais dificuldades para se eleger.
Dizem as pesquisas, e isso se aplica à eleição de 2018, que apenas entre 10% e 15% do eleitorado, vota pelo contato direto com o candidato. Contato esse proporcionado por eventos, reuniões, ou corpo-a-corpo.
Curiosamente, é a mesma proporção, entre 10% e 15%, daquele segmento do eleitorado que sai de casa no dia da eleição sem saber em quem votar e decide o voto circunstancialmente, seja pela "boca de urna", seja escolhendo aleatoriamente, às vezes até no chão, material de propaganda.
Os eventos, reuniões, o corpo-a-corpo, são interessantes, mas não se pode apostar tudo nesta forma de fazer campanha. É dispendiosa, e por ser geralmente muito breve e esporádico o contato direto com o candidato, não proporciona uma relação estável e segura. Além disso, são necessárias muitas reuniões ou eventos para que se atinja um público razoável.
Ao contrário, aqueles que, mesmo não desprezando estas formas tradicionais de fazer campanha politica, as minimizaram e centralizaram suas campanhas nas redes sociais, fizeram campanhas muito mais baratas, mais efetivas e atingindo um número infinitamente superior de eleitores a cada movimento efetuado.
A eleição de 2018 mostrou que o eleitor mudou muito. E essa mudança fez mudar também a relação eleitor-candidato.
Permanece existindo o que se poderia chamar de "eleitorado lumpenizado", aquele que pressiona o candidato buscando vantagens imediatas, que vende seu apoio ou troca o voto por migalhas.
Mas a maioria do eleitorado, aquele que predominou nestas eleições de 2018, mostrou e vai mostrar cada vez mais no futuro, uma postura diferente.
O eleitor agora quer saber mais do candidato. Quer interagir com ele. Vai atrás de respostas consistentes para seus problemas e, muito mais que na TV, nas reuniões ou nos panfletos, esse eleitor busca as redes sociais para se informar, dar opinião e trocar informações.
O voto de repulsa aos envolvidos com a corrupção, assim como o ante-petismo, se alimentou nas redes sociais.
Abre-se um mundo novo para os políticos e para o seu entorno eleitoral.
Campanhas suntuosas, marqueteiros mágicos e as coligações partidárias, perderam relevância e vão perder muito mais, na próxima eleição e nas outras.
As regras, a maneira tradicional de fazer campanha, de procurar e capturar o eleitor, que davam certo antes, já não deram certo nesta eleição que passou e darão certo cada vez menos nas outras.
A cabeça do eleitor mudou. A forma de se comunicar com ele também. E quem não reconhecer isto vai ficar pelo caminho.
A televisão sempre foi o elemento principal nas eleições. Entre 40% e 50% do eleitorado se orientava pela TV para decidir o seu voto. Por isso era tão importante o tempo de TV para os partidos e seus candidatos.
Nesta eleição que passou, o peso da TV na influencia sobre o eleitorado caiu para uma uma proporção aproximada de 30%, segundo as pesquisas.
Perdeu espaço para as redes sociais que foram responsáveis aproximadamente por 40% da votação.
O eleitorado que, fiel às formas tradicionais de decidir o voto, se orientou pela TV nesta eleição, é em geral um segmento acima de 40 anos, conservador, passivo, dificilmente interage. Dificilmente vai ás ruas, a comícios ou manifestações. É acomodado e pouco permeável a mudanças.
Diferente desse segmento, o público das redes sociais é majoritariamente um público mais jovem, ativo, que interage, que se organiza, influencia, vai às ruas,
e geralmente busca mudanças.
Desde algum tempo já, as grandes manifestações populares tem sido convocadas com êxito pelas redes sociais.
Foi isto que decidiu a eleição passada. Bolsonaro ganhou a eleição com apenas seis meses de PSL, um partido pequeno, sem recursos e muito pouca ou nenhuma estrutura. Na sua esteira e com as mesmas condições se elegeram muitos governadores e uma infinidade de proporcionais.
Não teve tempo de TV. Apostou nas redes sociais e criou um laço com a população que o levou à presidência. Mas não fez isso de uma hora para outra. Ao contrário. Construiu sua narrativa, sua história, seu perfil e seu discurso politico nas redes sociais com muita antecedência. E foi isto que lhe deu estabilidade politica e credibilidade.
Aprendendo com ele, que fez e deu certo, podemos repetir que, a estratégia por trás da comunicação precisa estar completamente alinhada à definição de uma narrativa consistente. Narrativa essa que não pode ser construída em cima da hora, como muitos tentaram e tentam fazer. Geralmente, quase sem êxito.
Para ter êxito, essa narrativa pode levar tempo para construir uma história. Mas o tempo, a persistência e uma narrativa consistente, formarão um perfil e uma mensagem tão forte que nenhuma outra em sentido contrário, ou algum fake news, seja capaz de derrubar.
Durante o processo eleitoral o PT tentou colar nas redes sociais uma mensagem contra Bolsonaro, expressada no "Ele não". Não prosperou.
Rapidamente criou-se um outro slogam favorável a ele que terminou predominando e consolidando sua vantagem nas pesquisas: o "Ele sim".
É verdade que as pessoas agora estão mais dispersas. São também bombardeadas diretamente e muitas vezes ao dia, por todos os tipos de conteúdo em seus aparelhos celulares. Mas neste universo de informação e desinformação, uma narrativa consistente, plantada com antecedência, vai se mostrar duradoura e resistente. E vai tornar viável uma candidatura eleitoral.
A televisão já perdeu a guerra da primeira tela. Nos dias de hoje, a grande maioria da população economicamente ativa, a primeira coisa que faz ao acordar e antes de dormir, é acessar a tela do celular.
Essa pequena tela pode ser carregada para todos os lugares. Dá acesso não apenas a um mundo de entretenimentos, mas também de noticias, de informação. Da mesma forma, permite que as pessoas se conectem, interajam, troquem informações, mandem e recebam mensagens.
Mesmo estando fisicamente longe umas das outras, essa relação é feita de forma simples, rápida e fácil, através do celular.
A televisão não tem essa maleabilidade e não permite tal movimentação e interação entre as pessoas.
A combinação perfeita para uma boa comunicação política reúne cinco elementos principais: uma narrativa consistente, a capacidade de entregar bons conteúdos, uma boa base de dados, metodologia de trabalho e a coordenação pela estratégia.
Quem estiver pensando em se candidatar em 2020, não pode cometer o equivoco de trabalhar sua candidatura apenas e certalmente, com os métodos tradicionais de fazer politica. Reuniões, eventos, corpo-a-corpo são interessantes, mas como elementos acessórios e complementares da campanha.
O candidato tem que buscar o novo e se apoiar nas redes sociais para construir sua candidatura, sua história e seu perfil, com uma narrativa consistente.
E saber usar as redes sociais como seu instrumento maior de comunicação com o eleitorado. Nesta comunicação procurar abordar, desde problemas mínimos que afetem a população, até problemas políticos mais complexos, dando sempre a sua opinião e pedindo a do eleitor, para construir uma corrente e formar seguidores.
Na política, o tempo é o ativo mais importante. Acertos ou erros em politica, podem promover o candidato ou lhe criar problemas. Quando criam problemas, é preciso tempo para a recuperação. E em politica não se pode perder tempo.
Na justiça comum uma sentença pode demorar dias, meses ou até anos para se cumprir.
Na vida politica, a sentença que castiga os erros eleitorais, costuma se concretizar em poucas horas.
Cada hora desperdiçada faz falta. Um dia pode significar uma carreira, uma reputação ou os próximos anos.
Então, é preciso ter muito cuidado com a construção de sua história e seu perfil. A base da comunicação precisa ser sólida e tem que mostrar sempre que o seu ponto de vista é o mais sinérgico com o do eleitorado ao qual pretende atingir.
Enquanto o tempo passa, é que as versões da história são construídas. As candidaturas também. Alguém sempre vai ganhar e alguém sempre vai perder.
É preciso saber lidar com isso. Não desanimar com os possíveis tropeços e não se acostumar nunca com o que já foi conquistado.
Querer sempre mais.
Rio de Janeiro, 19-03-2019
Carlos Montarroyos
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