Celso Ming - O Estado de S.Paulo
Ontem, o Banco Central revelou que o déficit do setor público em setembro foi o maior da história para o que acontece dentro do período de um mês. O governo federal teve um desempenho negativo de R$10,8 bilhões e os Estados e municípios, um saldo positivo de R$ 1,8 bilhão. O resultado geral é um déficit de R$ 9,0 bilhões. O governo Dilma não garantirá o superávit primário (sobra de arrecadação para resgate da dívida) de 2,3% do PIB ou algo em torno de R$ 110 bilhões. Vale pontuar que o prometido no início do ano foi atingir 3,1% do PIB (R$ 149 bilhões) que, desde junho, o ministro Guido Mantega, sem fôlego, já havia puxado convenientemente para baixo. A receita do governo em 12 meses não cresce mais do que 8,0% e a despesa, 13,5%. Alardeador contumaz da beleza das contas públicas, o ministro Mantega ontem se declarou espantado com a sangria de R$ 45 bilhões a R$ 47 bilhões, neste ano, somente nas rubricas seguro-desemprego e abono ao trabalhador. Também ontem, o secretário do Tesouro, Arno Augustin disse que os resultados decepcionantes de setembro se explicam por "várias especificidades", como se existisse mês sem isso aí. Em seguida, disse ele: mal ou bem, haverá superávit, portanto, o que entra vai ser maior do que o que sai. Trata-se de uma verdade truncada, na medida em que esse saldo positivo não será suficiente para segurar a inflação.
O governo federal não está se empenhando o suficiente para equilibrar as finanças públicas. Para não alargar demais o rombo fiscal, neste final de ano conta com outras especificidades, desta vez no lado da receita, em dois departamentos: o bônus de assinatura do leilão de Libra, de R$ 15 bilhões; e a operação espreme-empresa, que são cobranças de pendências em tramitação na Justiça, que atendem pela sigla Refis, com desfecho ainda não conhecido.
Mais uma vez, o Banco Central vai queimando a língua. A partir de agosto, passou a apostar na saúde das contas públicas. Em vez de continuar a denunciar o excesso de gasto, preferiu dizer que, logo mais, o desencontro entre receitas e despesas, que está puxando os preços para cima, passaria à condição de neutralidade. Ou seja, ainda que não ajude a combater, pelo menos deixará de produzir inflação. Mas vai dando o contrário.
Despesa pública cria renda. E mais renda do que produção, como ocorre hoje, tende a aumentar a velocidade das remarcações (sempre para cima), porque a procura fica mais forte do que a oferta. Ontem, o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Tulio Maciel, não repetiu o que vinham afirmando seus superiores imediatos. Reconheceu que "o quadro fiscal é desafiador", eufemismo cuja tradução para a linguagem popular é: "A vaca está tomando a direção do brejo". Isso tem consequência.
Enviado por: JORGE MOURÂO
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