As sessões da Câmara de Magé (RJ) reúnem mais seguranças do que vereadores. Nos gabinetes, plenário e galerias, sujeitos parrudos de óculos escuros e cara de poucos amigos dominam todos os espaços. É possível contar, no estacionamento da Casa, no bairro do Tênis Clube, mais de dez carros blindados, com vidros reforçados, dirigidos pelos tais tipos mal-encarados, que saem queimando pneus com os automóveis e olhando para todos os lados, em um evidente clima de tensão. Não é à toa a preocupação.
A cidade, terra de Mané Garrincha, ostenta o nada honroso título de campeã brasileira da violência política, com nove políticos e parentes deles assassinados desde 1997. No caso mais chocante, a então vice-prefeita pelo PSDB, Lídia Menezes, foi torturada e morta com três tiros, em junho de 2002. O carro dela chegou a ser incendiado. Na mesma cidade foram assassinados a tiros por pistoleiros o vereador Alexândre Alcântara (PSC), a mãe e o motorista. O então presidente da Câmara, Genivaldo Ferreira Nogueira, o Batata, respondeu a júri popular como suposto mandante em 1998.
Em abril deste ano, foi a vez do vereador Antonio Carlos Pereira (PMDB), o Tunico Pescador, ser executado. Em 2006, morreu Carlos Alberto do Carmo Souto, o Chuveirinho. No seu enterro, o então vereador Dejair Côrrea (PDT), ex-policial que só andava armado, disse que os colegas se questionavam quem seria a próxima vítima. A resposta veio um ano depois: foi ele próprio, morto com tiros nas costas, sem poder usar a pistola prateada que sempre levava na cintura.
Dominada durante duas décadas pela família Cozzolino, que teve uma prefeita, Núbia Cozzolino, afastada em 2010, sob a acusação de corrupção e dois secretários presos - um deles, Charles, irmão da prefeita cassada - a cidade tem, pela primeira vez, um prefeito, Nestor Vidal (PMDB), que não é ligado ao poderoso clã, acusado de envolvimento com a violência.
Líder isolada no sinistro ranking, Magé, cidade de 244 mil habitantes a 50 quilômetros da capital fluminense é seguida de perto pelas paulistas Guarujá, no litoral, e Jandira, na Grande São Paulo, ambas com cinco homicídios de políticos. Nos casos mais recentes, morreram, em março deste ano, o ex-secretário municipal de Governo de Guarujá, Ricardo Augusto Joaquim de Oliveira, do Partido Pátria Livre (PPL), executado por dois motoqueiros na frente de dezenas de testemunhas, em uma reunião partidária. Em dezembro de 2010, Jandira registrou o assassinato, também praticado por dois motoqueiros, do prefeito Walderi Braz Paschoalin (PDT), pouco antes de dar entrevista a uma rádio local.
Com base em notícias de imprensa e processos judiciais, CartaCapital constatou a morte violenta de 72 políticos – quase todos de nível municipal como prefeitos, secretários e vereadores – e seis parentes entre 1983 e 2012. De acordo com os números, os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Piauí e Alagoas foram os mais letais. No mais rico estado da federação, foram mortos 21 gestores públicos ante 14 no Rio, boa parte na violenta região da Baixada Fluminense. No Piauí, o assassinato de oito prefeitos em dez anos levou à criação da Associação das Viúvas de Ex-prefeitos Assassinados, que pressiona as autoridades pela resolução dos crimes. Alagoas também registrou oito assassinatos. Os níveis de resolução dos crimes são, em geral, muito baixos e quase sempre param nos assassinos, raramente chegando aos mandantes. Em muitos casos, os principais suspeitos são outros políticos rivais, suplentes e empresários com interesse em áreas sensíveis (e lucrativas) da administração pública como coleta de lixo, merenda e segurança.
Os crimes, típicos de execução, ostentam, sempre, um modus operandi comum, com dois homens em motos potentes, rostos protegido por capacetes escuros, o carona armado, e disparos em áreas vitais como cabeça e peito. Há mortos de vários partidos, com predominância do PT, PSDB, PDT e PV. A razão para este fenômeno, aponta a vice-coordenadora do Núcleo de Estudo da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo (USP), Nancy Cardia, é uma mistura entre processos violentos de ocupação de espaços políticos e certeza de impunidade. “Os números são chocantes e os crimes ocorrem em regiões ricas e pobres. Até a ocupação do Velho Oeste americano foi minimante mais organizada e menos violenta do que a política brasileira”, diz.
O presidente da Confederação Nacional dos Municípios, Paulo Ziukoski, ex-prefeito de Mariana Pimentel (RS), considera que os prefeitos são totalmente desprotegidos da violência política, ao contrário de governadores e outras autoridades, que contam com esquemas oficiais de segurança. “O poder dos chefes de Executivo municipais é muito grande, assim como os interesses que podem ser contrariados. Os conflitos se agudizam na esfera municipal e quando o prefeito contraria algum interesse poderoso, pode ter certeza de que haverá represálias.”
Para o cientista político e professor do Insper, Humberto Dantas, a situação demonstra que, nem de longe, a democracia está consolidada no Brasil. “A violência expõe a fraqueza expressiva das instituições formais. Crer na força, explorar aspectos culturais associados à lei violenta e forjada individualmente são características de uma sociedade que não compreende o verdadeiro sentido do contrato social”, argumenta. O professor José Cláudio Alves, pro-reitor da Universidade Federal Rural do Rio e autor do livro Dos barões ao extermino – uma história da violência política na Baixada Fluminense, tem opinião semelhante. “Na região, há uma lógica da violência que começa com o então deputado Tenório Cavalcanti, nos anos 1950, mas é institucionalizada pela ditadura militar, que constrói, ao longo do tempo, grupos formados por PMs, policiais civis e guardas municipais, voltados à execução sumária dos inimigos de seus contratadores. Nos tempos atuais, esse pessoal exerce, com extrema violência, o controle político de áreas da Baixada, assim como negocia o tráfico de drogas, de armas e roubo de cargas”, diz. Alves considera as milícias uma derivação moderna destes antigos grupos armados.
Promotor de Justiça e membro do Centro de Apoio Criminal do Ministério Público paulista, Tomás Ramadan aponta a impunidade e os altos valores em disputa como motores dos crimes políticos no Brasil. “Esse tipo de crime continua ocorrendo em parte porque a punição para o chamado homicídio simples é ridícula. Como não é considerado crime hediondo, a pessoa recebe uma pena de seis anos de prisão, mas pode ser solta ao cumprir um sexto da sentença. Assim, pode ficar apenas um ano na cadeia, enquanto se pagam altas somas para eliminar adversários políticos”, compara.
A estratégia para combater a violência política centra-se, para os pesquisadores, na garantia da punição de executores e mandantes e no fim da tolerância com os crimes cometidos por políticos no mandato. “Temos que lutar para garantir a punição dos culpados, de forma que a violência política, em algum momento, vire arqueologia entre nós”, opina Nancy Cardia. Dantas defende mudanças profundas no Judiciário, que vê como o pior dos três poderes. “O processo das eleições no Brasil pouco tem de pacífico e é fundamental uma Justiça atuante para coibir isso”. A Associação Nacional de Prefeitos e Vices do Brasil (ANPV) sugere a criação de estruturas de segurança oficial para os prefeitos, a exemplo da que já existe para os governadores, e cessão de moradia aos chefes de executivos municipais durante o mandato.
Um rastro de sangue e pólvora
Setembro/2012 – Isaías Vieira, secretário de Obras de Santo Antonio do Leverger (MT)
agosto/2012 - Marcos Francisco Camargo, ex-secretário municipal de Limeira
abril/2012 – Antonio Carlos Pereira, vereador (PMDB) de Magé (RJ)
março/2012 – Ricardo Augusto Joaquim de Oliveira, ex-secretário de Guarujá
agosto/2011 – Rodrigo da Cruz França, vereador (PV) de Franco da Rocha (SP)
maio/2010 – João Santana de Moura Vilar, o Tucla, vereador de Cubatão (SP)
dezembro/2010 -Walderi Braz Paschoalin, prefeito (PDT) de Jandira (SP)
dezembro/2010 – Genival Barbosa da Silva, vereador (PSC) de Roteiro (AL)
fevereiro/2010 – Eliseu Santos, ex-secretário de Saúde de Porto Alegre (RS)
março/2010 – Alis Rahal Maluf, ex-vereador de Cubatão (SP)
outubro/2010 – Evaldo José Nalin, vereador (PSDB) de Analândia (SP)
setembro/2010 – Divaldo Willian Rinco, prefeito (PSDB) de Alto Paraíso (GO)
setembro/2010 – Rubens Domingos, ex-vereador de Franco da Rocha (SP)
julho/2010 – Antonio Ivo Aureliano, suplente de vereador de Jandira (SP)
julho/2010 – Waldomiro Moreira de Oliveira, ex-vereador (PDT) de Jandira (SP)
novembro/2010 – Luiz Carlos Romazzini, vereador (PT) de Guarujá (SP)
julho/2009 – Márcio César Lopes Carvalho, prefeito (PMDB) de Barbosa Ferraz (PR)
novembro/2008 – Carlos Aparecido da Silva, ex-vereador de Franco da Rocha (SP)
novembro/2008 – Orney dos Santos Pereira, candidato a vereador de Magé (RJ)
outubro/2008 – Willians Andrade Silva, vereador (PP) de Guarujá (SP)
julho/2008 – Vendelino Royer, prefeito (PMDB) de Itaipulândia (PR)
outubro/2007 – José Geraldo Siqueira, vereador de PT do B de São Luiz do Quitunde (AL)
outubro/2007 – Fernando Aldo Gomes, vereador (PPS) de Delmiro Gouveia (AL)
setembro/2007 – José Élio Nascimento, ex-vereador de Pilar(AL)
julho/2007 – João Ferreira da Silva, ex-vereador de Satuba (AL)
maio/2007 – Gilberto Andrade, prefeito de Aureliano Leal (BA)
fevereiro/2007 – Dejair Côrrea, vereador (PDT) de Magé (RJ)
agosto/2006 – Carlos Alberto do Carmo Souto, vereador (PSC) de Magé (RJ)
julho/2006- Eduardo dos Santos, prefeito de Roteiro (AL)
julho/2004 – João Monteiro de Castro, vereador (DEM) do Rio de Janeiro
janeiro/2003 – Joaldo Barbosa, deputado estadual (PL) de Sergipe
janeiro/2003 – Antonio Valdeci de Paiva, deputado federal (PSL) do Rio de Janeiro
janeiro/2002 – Celso Daniel, prefeito (PT) de Santo André (SP)
junho/2002- Lídia Menezes, vice-prefeita (PSDB) de Magé (RJ)
novembro/2001 – Ernesto Pereira, vereador (PTN) de Guarujá (SP)
setembro/2001 – Carlos Alberto Santos de Oliveira, vereador (PV) de Boquim (SE)
setembro/2001 – Antonio da Costa Santos, o Toninho do PT, prefeito de Campinas (SP)
março/2001 – Mário Soares de Almeida, vereador de Jandira (SP)
março/2001 – Natur de Assis Filho, ex-presidente do PV da Bahia
outubro/2000 – Manuel de Souza Neto, coordenador de campanha do PT de Suzano (SP)
outubro/2000 – José Ribamar de Souza Gondim, presidente do PT de Cururipe (BA)
outubro/1999 – Dorcelina Folador, prefeita (PT) de Mundo Novo (MS)
outubro/1999 – Olavo Pires, senador de Rondônia
março/1999 – José Miguel Dantas, prefeito de Batalha (AL)
fevereiro/1999 – Jairo Antonio Gebrin, secretário de Esporte de Arujá (SP)
janeiro/1999 – João Batista Filho, prefeito de Capitão de Campos (PI)
dezembro/1998 – Ceci Cunha (PSDB), deputada federal por Alagoas
julho/1998 – Ariomar Oliveira Rocha, vereador (PT) de Jaguarari (BA)
junho/1998 – Cícero Lucas de La Peña, presidente do PT de Xexéu (PE)
junho/1998 – Walter Arruda, vereador de Magé (RJ)
junho/1998 – Sérgio Costa Barros, vereador de São João do Meriti (RJ)
maio/1998 – Pedro Carlos dos Santos, vereador (PT) de Candeias (BA)
março/1998 – Alexandra Alcântara, vereador de Magé (RJ)
setembro/1997 – Fulgêncio Manoel da Silva, presidente do PT de Santa Maria da Boa Vista (PE)
agosto/1997 – Geraldo Ângelo, vereador de Magé (RJ)
junho/1997 – Manuel Rezende da Silva, secretário de Finanças de Guarulhos (SP)
maio/1997 – Raimundo Nonato Marques, prefeito de Luzilândia (PI)
maio/1997 – Orlando Falcão Filho, vereador do Guarujá (SP)
março/1997 – Abílio Alapenha Filho, secretário de Obras (PT) de Angra dos Reis (RJ)
fevereiro/1997 – Ivan Chaves Teixeira, presidente do PT de Abre Campo (MG)
dezembro/1996 – Manoel Portela de Carvalho, prefeito de Aroazes (PI)
abril/1996 – César Augusto Leal Pinheiro, prefeito de Picos (PI)
abril/1995 – Jorge Júlio da Costa Santos, o Joca, prefeito de Belford Roxo (RJ)
agosto/1993 – Ary Vieira Martins, subsecretário de Serviços Públicos de Duque de Caxias (RJ)
dezembro/1993 – Renato Moreira, vereador de Imperatriz (MA)
agosto/1992 – Wilson Pio Barbosa, prefeito de São Félix (PI)
maio/1992 – Edmundo Pinto, governador do Acre
abril/1992 – Joaquim Fonseca Santos, prefeito de Redenção do Gurguéia (PI)
janeiro/1991 – Abeilard Goulart, prefeito de Itaguaí (RJ)
julho/1990 – José Geraldo Pontes Linhares, prefeito de José de Freitas (PI)
abril/1989 – Francisco Luis Macedo, prefeito de Padre Marcos (PI)
abril/1983 – Dorvalino Alves Teixeira, prefeito de Jandira (SP) pelo extinto PDS
Obs: No período, morreram 72 políticos e seis parentes, que os acompanhavam no momento dos atentados. As fontes de pesquisa são notícias da imprensa nacional e processos judiciais.
Fonte: por Redação Carta Capital — publicado 25/10/2012
Nos últimos vinte anos, 42 políticos foram executados no estado do Rio
Levantamento mostra que 20 políticos fluminenses foram assassinados em emboscadas armadas por pistoleiros nos últimos dez anos
Rio - Moradores da pacata Macuco, cidade de pouco mais de 5 mil habitantes, na Região Serrana, amanheceram atônitos no último dia 30. O empresário Rogério Bianchini, de 62 anos, ex-prefeito do município, foi executado com cinco tiros na frente da esposa e do filho de 7 anos, na porta de casa, no bairro Maravilha. Os matadores fugiram em um Honda Civic prata. Uma das principais linhas de investigação, a cargo da 154ª DP (Cordeiro), é de crime político, já que Rogério era bem cotado para voltar à prefeitura no ano que vem.
Levantamento feito pelo DIA mostra que Rogério, o segundo ex-prefeito de Macuco fuzilado, é o vigésimo político assassinado em circunstâncias idênticas nos últimos dez anos no estado. Seu antecessor, Maurício Bittencourt Papelbaun, 48, levou nove tiros em uma emboscada de pistoleiros, a caminho de um casamento, em 2006. Ele estava ao lado de dois filhos, um deles também baleado.
Ao todo, nos últimos vinte anos, 42 políticos foram executados no estado do Rio. Na lista estão ex-prefeitos, um prefeito, vereadores, ex-vereadores, um ex-deputado e candidatos a cargos públicos. As vítimas tinham como domicílios eleitorais 11 cidades: a capital, seis da Baixada Fluminense, duas da Região Serrana, uma na Região Metropolitana e uma no Norte Fluminense.
A morte de Rogério Bianchini traz à tona clima de tensão e medo. Nessas regiões, onde políticos e candidatos podem ser mortos a qualquer tempo, a proximidade das eleições transforma as cidades em barris de pólvora. Leis são ignoradas e desavenças no campo político são resolvidas à bala.
Para especialistas, a recorrente violência política é um sinal de alerta às autoridades para o ano que vem, quando prefeitos e vereadores serão eleitos.
“A violência política é uma expressão de rivalidade e de interesses diversos defendidos por candidatos. Interesses que nem sempre são legítimos. Por isso, ela se sobressai mais nas eleições municipais, quando as disputas são mais acirradas e, sobretudo, em cidades do interior e da Baixada Fluminense. O fato de os adversários residirem na mesma cidade ou região torna as campanhas mais próximas, mais ferrenhas e, algumas vezes, pessoais”, adverte a juíza Daniela Barbosa Assumpção de Souza, da 2ª Vara Criminal de Duque de Caxias. Nas últimas eleições, Daniela coordenou, com sucesso, a fiscalização da propaganda eleitoral do Tribunal Regional Eleitoral.
Para a magistrada, a disputa sangrenta pelo eleitorado é alimentada pela impunidade. Dos mais de 40 políticos assassinados desde 1991 no estado, poucos casos tiveram suspeitos de autorias apontados e presos. “A impunidade é o principal combustível dos crimes eleitorais. Na questão dos homicídios, a estrutura deficiente do estado, em relação a investigações, contribui decisivamente para que os casos não tenham desfecho. O que se vê hoje é que, apenas em flagrantes, consegue-se um desfecho satisfatório, com possibilidade de ações penais”, diz.
“É preciso mais fiscalização”
A juíza Daniela Barbosa vê uma luz no fim do túnel para que a violência política seja ao menos ameniza da. “É preciso aumentar a fiscalização eleitoral e as investigações, para que o Ministério Público denuncie mais e os criminosos sejam julgados e punidos judicialmente em tempo razoável.”
Daniela lembra que graças ao empenho de fiscais nas últimas eleições, pela primeira vez, em 2014, políticos apoiados por grupos criminosos nos chamados “currais eleitorais” não foram eleitos, com exceção de dois políticos apenas. “Isso se deveu à intensa fiscalização eleitoral e às UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora)”, observa.
“Quando acaba o pesadelo?”
No último dia 8, moradores de Macuco , na Região Serrana, fizeram uma passeata pelas ruas da cidade, pedindo paz na pequena cidade. Parentes e amigos de Rogério Bianchini e Maurício Bittencourt Papelbaun participaram da manifestação, mas evitaram comentar as mortes dos políticos.
No dia da morte de Rogério, o irmão dele, Roberto, fez um desabafo pela TV. “Quando esse pesadelo vai acabar? Nós, parentes, perdemos um grande homem, e a população , um político que dedicou nove anos de sua vida para o bem da cidade”, disse. A vereadora Michele Bianchini, sobrinha de Rogério, disse que pensa em abandonar a política.
Na lista estão ex-prefeitos, um prefeito, vereadores, ex-vereadores, um ex-deputado e candidatos a cargos públicos
Foto: Divulgação
Cristiane Guedes reconhece que carreira é perigosa, mas não quer desistir
O assassinato do vereador de Belford Roxo Albertino Martins Guedes (PSC), aos 52 anos, em 26 de agosto de 2005, é mais um exemplo de impunidade. A vítima foi morta com três tiros, um dia antes de apresentar relatório final de uma CPI. A comissão teria apurado desvio de R$ 1,8 milhão na construção de um aterro sanitário no município em 2004. O caso não teve solução.
“Meu pai teve apenas oito meses de mandato. Eu e meus parentes fomos chamados apenas uma vez para depor na polícia e só. Infelizmente, a morte dele ficou por isso mesmo. Só nos resta esperar pela justiça divina e seguir o legado de honestidade e bom caráter deixado por ele”, diz Cristiane Guedes, de 36 anos, uma das três filhas de Albertino Guedes.
Cristiane, que cuida com a família de um centro social fundado pelo parlamentar, responsável pela educação infantil de 250 crianças carentes, se elegeu vereadora entre 2009 e 2012 e pretende ser candidata novamente ano que vem.
“Sei que a carreira política é arriscada, em qualquer lugar da Baixada Fluminense, mas meu pai me ensinou a não ter medo de nada, quando o objetivo é fazer apenas o bem para o próximo”, ressalta.
‘Se você se dispõe a denunciar, a morte chega mais rápido’
O assassinato de personalidades políticas faz de Magé, na Baixada Fluminense, o município campeão nesse tipo de crime. Nos últimos 24 anos, nove execuções foram registradas. Na Câmara Municipal é comum se ver mais seguranças que assessores dos políticos.
“Aqui é difícil se fazer política. Se você é conivente com situações ilícitas, está arriscado a perder a vida para gente que quer participar do esquema. Por outro lado, se você se dispõe a denunciar ações ilegais, a morte também ronda e chega até mais rápido”, desabafa um vereador.
De agosto de 1997 a março de 2012, entre os políticos assassinados a tiros em Magé estavam uma vice-prefeita e três vereadores. A cidade foi dominada por 20 anos pela família Cozzolino, cuja representante maior na política foi Núbia Cozzolino, afastada em 2010 acusada de corrupção.
Apesar do cenário de horror político local, não se tem notícias de punições para os casos. Nem mesmo para o que mais chocou os moradores. Em janeiro de 2002, o vereador Alexandre Alcântara, sua mãe, Edilia, e o motorista da família, Arnaldo Santos, foram metralhados na Estrada Rio-Magé. Cinco meses depois, outro crime bárbaro: a vice-prefeita Lídia Menezes foi torturada e morta a tiros. Seu corpo foi carbonizado.
O último político morto em atentado na cidade foi o vereador Antônio Carlos Pereira, o Tonico Pescador (PMDB). Uma semana após tomar posse, ele foi baleado em praça pública por dois homens em uma moto. Foram oito tiros. O então delegado da 66ª DP, Franco Albano, comentou que Tonico tinha muitos inimigos. Principalmente políticos.
Matadores de aluguel vêm de Magé
Magé também ‘exporta’ matadores de aluguel para a prática de crimes políticos, cometidos na Baixada Fluminense por grupos de extermínio, milicianos e traficantes. Investigações da 78ª DP (Fonseca), por exemplo, apontam que os executores do vereador Lúcio Diniz Araúno Martelo, o Lúcio da Nevada (PRP), em Niterói, em outubro de 2010, seriam paramilitares e foram contratados em Magé.
Nevada, que se dedicava a um time de futebol e era novato na política, foi executado na porta de casa com dez tiros por algozes procedentes de Magé.
“Nesse caso — um dos poucos no setor (de política) que conheço que houve avanços na investigação —, a Polícia Civil e o promotor de justiça Leandro Navega trabalharam muito bem e logo chegaram aos supostos autores. Infelizmente, a maioria dos acusados, entre eles o vereador Carlos Macedo (PRP), que era suplente do meu cliente e acusado de ser o mandante do crime para ficar com a vaga na Câmara, encontra-se em liberdade. Mas acreditamos que a justiça ainda será feita”, diz o advogado da família de Nevada, Silmar Júnior.
Macedo, que nega qualquer envolvimento no crime e voltou a legislar, chegou a ser preso, mas foi solto para responder ao processo em liberdade.
As investigações indicam que ele manteria, na época da morte de Nevada, um esquema de corrupção orquestrado dentro de seu gabinete.
Dos seis acusados de participar da morte de Nevada, apenas Marco Antônio Titonelli está preso. Ele está encarcerado no Instituto Penal Plácido Sá Carvalho, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu.
Impunidade: Herança do coronelismo
Para especialistas, não há perspectivas de mudanças no quadro de violência envolvendo políticos nas próximas eleições. Paulo Baía, cientista político da UFRJ, diz que uma série de fatores contribui para isso.
“Infelizmente, enquanto houver corrupção, falta de investigação séria dos crimes e impunidade imperando — sem prisões e condenações dos assassinos na maioria dos casos —, a tendência é que o cenário permaneça o mesmo por muito tempo”, justifica.
Baía afirma que execuções de políticos são uma “marca cultural” enraizada em áreas urbanas e rurais mais afastadas dos grandes centros urbanos. Nessas regiões, criminosos ligados ao tráfico, à milícia, a bicheiros e a outros grupos que visam a atividades ilícitas têm ampla influência junto às comunidades, sobretudo as mais carentes.
“Em outros estados também persiste o mesmo problema, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste. São resquícios de práticas antigas, que persistem desde a época do imperialismo e da primeira República, com o ranço ainda do coronelismo incorporado”, opina o cientista político.
TRE ainda sem esquema de segurança
A vereadora Juliana do Táxi (Pros), de Duque de Caxias, teve o pai, Sebastião Alves, o Tião do Táxi (PMDB), morto por uma dupla de moto com dez tiros em 2006. Ela traduz, resignada, o pensamento de parentes e amigos de políticos mortos na região.
“Casos assim de mortes de políticos na Baixada nunca terão solução”, desabafa Juliana, lembrando que até hoje não se descobriu a autoria do assassinato de Sebastião. Muitos parentes de vítimas também foram mortos nos últimos anos no estado.
Em nota, o TRE garante que “está em contato constante com os órgãos estaduais e federais de segurança, com o propósito de sempre aprimorar o trabalho de inteligência no processo eleitoral”. “Como falta mais de um ano, ainda não há um esquema de segurança para 2016”, diz a nota.
A Frente Nacional de Prefeitos e a Confederação Nacional dos Municípios não se pronunciaram sobre o assunto.
Fonte: Jornal O Dia
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