
Esta semana um fenômeno natural literalmente arrasou o Haiti. Com ventos de 233 quilômetros por hora, chuvas torrenciais e tempestades, o Furacão Matthew deixou mais de 900 mortos em sua passagem.
As nossas eleições municipais, que em alguns lugares ainda estão sendo disputadas em segundo turno, sofreram também o impacto de um "Furacão Matthew": a enorme quantidade de votos brancos, nulos e as abstenções.
Em todo o país, vinte e cinco milhões de pessoas não compareceram para votar. Foram as abstenções. Ao lado desse numero, junte-se os nulos, aqueles que se recusaram a votar nos partidos e candidatos existentes e preferiram anular o voto. Ou então, não votar em ninguém, ou seja, votar em branco. Se tomarmos apenas as capitais, esse número soma 3,7 milhões de pessoas.
O grande vencedor destas eleições, se assim se pode considerar que houve um vencedor, foi na realidade a antipolítica.
Em São Paulo, Dória, o prefeito eleito em primeiro turno, teve 3.085.181 votos. A soma de abstenções, brancos e nulos chegou a 3.096.186. Mais votos que o prefeito eleito.
No Rio de Janeiro, dois candidatos foram ao segundo turno. Crivella teve 842.201 votos. Freixo teve 553.424 votos. A soma dos dois dá 1.395.625 votos.
Pois bem, a quantidade de votos nulos, brancos, acrescidos das abstenções é maior que a votação deles dois juntos, pois soma 1.866.621
E este fenômeno aconteceu em todo o Brasil. Essa "alienação eleitoral" chegou a 43% em Belo Horizonte, 42% no Rio, 38% em São Paulo e Porto Alegre. A média em todo o Brasil ficou em 32%. É muita gente desiludida e revoltada.
A Lava-Jato reforçou na população o desencanto com a política. E a população mandou um recado contundente nestas eleições. O recado foi geral. Mas o recado mais duro foi endereçado ao PT.
Não sem razão, o Financial Times afirma que o PT sofreu uma humilhação nacional.
O partido teve o seu número de prefeitos e vereadores reduzido em mais de 30% em todo o Brasil. É um desastre político colossal. Maior em termos comparativos, que os estragos provocados pelo Furacão Matthew no Haiti. Lá um desastre natural. Aqui um desastre político. O PT deixou de ser o primeiro ou o segundo maior partido nacional, para ser
o décimo, depois destas eleições.
Lula fez um giro pelo Nordeste, região que era considerada um reduto do PT, apoiando campanhas municipais. Dos prefeitos petistas ou apoiados pelo PT, somente em Recife um deles vai para o segundo turno.
Pior: Lula não conseguiu eleger o próprio filho para vereador em São Bernardo.
No Rio, Dilma subiu no palanque de Jandira. Dai em diante Jandira despencou nas pesquisas. Foi a sétima colocada com 101 mil votos, votação menor, para prefeito, que a de Carlos Bolsonaro do PSC para vereador, o mais votado no Rio de Janeiro, com 106 mil votos.
O PT foi o protagonista dos maiores escândalos de toda a história política brasileira, com o Mensalão e a Lava-Jato. Alguns dos seus principais dirigentes estão na cadeia por corrupção e outros ameaçados de ser presos, inclusive Lula.
Além disso, o PT levou o país à sua mais devastadora crise econômica, com 12 milhões de desempregados, PIB negativo e uma inflação acima de dois dígitos. Faz pouco, em uma entrevista, o Ministro Meirelles afirmou que o Brasil está vivendo a maior recessão de toda a sua história econômica. E isso é resultado das administrações petistas.
Os indicadores dizem que 2017 será melhor. A inflação deve ceder. A economia, aos poucos, deve voltar a crescer. Mas os efeitos devastadores dos governos petistas ainda vão demorar a serem superados. Entre outras coisas, vão levar a um aumento substancial da composição das classes D e E. Em nove anos, à partir de 2016, essas classes serão acrescidas em mais um milhão de pessoas, devendo chegar a 41 milhões, mesmo com a retomada do crescimento. A pobreza portanto vai se agravar, até no mínimo 2025, é o que dizem os institutos de pesquisa.
É preciso uma reforma profunda para que volte a confiança. A desconfiança dos eleitores e da população em geral não é apenas com o PT.
Ela é muito mais profunda. E vai exigir da classe política, dos intelectuais e das lideranças de classe e populares, um esforço para mudar essa situação. É preciso reciclar as formas de atuação e rever a relação com os eleitores e a população.
Existe na realidade, de parte da população, uma fadiga generalizada em relação a um sistema político ineficiente. E esta fadiga juntou-se aos escândalos do Lava-Jato, gerando essa insatisfação que se traduziu nesta recusa em votar naquilo que a população acha que não deve mais ser votado.
Existem partidos demais. Pouco diferentes uns dos outros. Poucos são programáticos ou representam realmente setores sociais ou segmentos da população. São criados de forma aleatória e negociados depois. É preciso uma reforma profunda em tudo isto.
Michel Temer tem pela frente dois anos para discutir e implementar as mudanças econômicas e políticas necessárias à superação dessa crise. Assim como Itamar Franco, que saiu da vice-presidência e recolocou o país no caminho do crescimento, Temer pode desempenhar uma função semelhante. Só precisa ter muito cuidado para não tropeçar em si mesmo. Para implementar as mudanças com perspectiva de êxito, Temer precisa manter unida sua base de apoio. Por isso ele nega sempre que seja candidato em 2018.
No entanto, se o país começar a crescer, ele será pressionado pelo entorno dos que o cercam, para que assuma uma candidatura à reeleição. Ele terá então que escolher entre manter o seu entorno, ou manter sua base de apoio, pois ela se desfará e buscará os seus
próprios projetos, assim que surjam os primeiros sinais de que Temer é candidato á reeleição.
Abraços.
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